Diarreia é considerada crônica quando dura mais de quatro semanas. Nesse ponto, infecção comum deixa de ser a explicação mais provável e entram na lista síndrome do intestino irritável, intolerâncias e má absorção, doença celíaca, doença inflamatória intestinal, efeitos de medicamentos e alterações da tireoide, entre outras. A investigação começa pela história e por exames de sangue e fezes, e a colonoscopia entra conforme o quadro. Sangue, febre, perda de peso ou diarreia que acorda à noite antecipam a avaliação.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica presencial ou avaliação individual. O diagnóstico e o tratamento devem ser orientados por um profissional de saúde.
Uma diarreia de dois ou três dias raramente preocupa: quase sempre é uma infecção que o corpo resolve sozinho, com hidratação e paciência. O cenário muda quando as semanas passam e o intestino não volta ao normal. A pessoa se acostuma, adapta a rotina, evita sair depois das refeições, e a diarreia deixa de ser um episódio para virar parte da vida. É exatamente esse ponto que merece investigação.
O que muda quando a diarreia passa de quatro semanas
Diarreia aguda, de até duas semanas, é dominada por vírus, bactérias e toxinas alimentares. Diarreia crônica, acima de quatro semanas, tem outra lista de causas, e o raciocínio do médico se reorganiza. A pergunta deixa de ser o que você comeu e passa a ser como o intestino está funcionando, o que ele está deixando de absorver e se existe inflamação ou lesão.
O primeiro passo é caracterizar a diarreia, porque o tipo dela já aponta direções. Fezes aquosas e volumosas sugerem que o intestino está secretando ou não absorvendo água. Fezes gordurosas, claras, que boiam e deixam resíduo no vaso indicam má absorção de gordura. Fezes com sangue, muco ou pus apontam para inflamação. Diarreia que acorda a pessoa à noite raramente é funcional e antecipa a investigação.
As causas que o médico coloca na mesa
- Síndrome do intestino irritável com predomínio de diarreia: dor abdominal que melhora ao evacuar, sem sangue, sem perda de peso, geralmente diurna.
- Intolerâncias e má absorção de carboidratos: lactose, frutose e outros açúcares que fermentam e puxam água para o intestino.
- Doença celíaca: pode se apresentar com diarreia, mas também com anemia, cansaço e distensão, e às vezes com sintoma discreto.
- Doença inflamatória intestinal: retocolite ulcerativa e doença de Crohn, em geral com sangue, urgência, dor e perda de peso.
- Supercrescimento bacteriano no intestino delgado: fermentação precoce que causa gases, distensão e diarreia.
- Medicamentos: metformina, alguns antibióticos, laxantes, medicações para o coração e anti-inflamatórios estão entre os mais associados.
- Alterações da tireoide, diarreia por sais biliares, infecções que se prolongam e insuficiência do pâncreas.
A lista é longa de propósito. Ela mostra por que atribuir a diarreia crônica a nervosismo ou a alimentação, sem exame, deixa passar diagnósticos que têm tratamento específico. Também mostra por que a consulta se demora na história: a ordem dos exames depende de qual dessas causas o quadro sugere.
A sequência da investigação
A história clínica é o filtro mais importante. Quando começou, se houve viagem, uso de antibiótico ou remédio novo, se há relação com algum alimento, se existe sangue, se acorda à noite, quanto peso foi perdido, se há histórico familiar de doença celíaca, doença inflamatória intestinal ou câncer de intestino. O exame físico procura sinais de desidratação, anemia, desnutrição e massa abdominal.
Os exames iniciais costumam ser de sangue e de fezes. No sangue, hemograma, marcadores de inflamação, função da tireoide, ferro, vitamina B12 e sorologia para doença celíaca. Nas fezes, pesquisa de parasitas e bactérias, gordura fecal e calprotectina, que mede inflamação intestinal e ajuda a decidir se a colonoscopia é necessária logo ou pode aguardar. Essa combinação já separa boa parte dos casos funcionais dos inflamatórios.
A colonoscopia com biópsias entra quando há sinal de alerta, quando a calprotectina está alta, quando a idade aumenta a preocupação com lesão ou quando os exames iniciais não explicaram o quadro. Ela permite ver o cólon e o final do intestino delgado e colher fragmentos, inclusive para diagnosticar a colite microscópica, uma causa de diarreia aquosa em que a mucosa parece normal ao olho e só a biópsia revela a inflamação. O teste respiratório de hidrogênio e a endoscopia alta com biópsia de duodeno são acrescentados conforme a suspeita, e cada um responde a uma pergunta específica.
Os sinais que antecipam tudo
Alguns achados tiram a diarreia da fila de espera. Sangue nas fezes, febre, perda de peso não intencional, diarreia que acorda à noite, anemia, dor abdominal intensa e sinais de desidratação, como boca seca, tontura ao levantar e pouca urina, pedem avaliação rápida. Idade acima da meia-idade com diarreia de início recente, ou histórico familiar de câncer colorretal, também mudam a prioridade. Nesses casos, o quadro que parecia doença inflamatória intestinal, infecção grave ou outra causa estrutural precisa ser esclarecido sem demora.
Por que segurar o sintoma não é a resposta
Medicamentos que reduzem os movimentos do intestino aliviam a diarreia em poucas horas, e a tentação de usá-los por conta própria é grande. O problema é duplo: eles escondem o comportamento natural do quadro, que é justamente o que o médico precisa observar, e em algumas causas infecciosas e inflamatórias podem agravar a situação. A mesma cautela vale para dietas restritivas iniciadas sem orientação, que podem alterar exames, como a sorologia da doença celíaca, e confundir a investigação.
O que a evidência ainda não resolveu
Em uma parcela das pessoas, a investigação completa não encontra causa estrutural e o diagnóstico fica no campo funcional. Os mecanismos por trás disso, que envolvem sensibilidade do intestino, microbiota e eixo intestino-cérebro, ainda não estão totalmente compreendidos, e a resposta ao tratamento varia de pessoa para pessoa. Isso não torna o sintoma menos real nem o acompanhamento menos útil: significa que o plano é ajustado ao longo do tempo, com base no que funciona para cada caso.
Quando procurar gastroenterologia em São Paulo
Se a diarreia já passou de quatro semanas, ou se antes disso apareceram sangue, febre, perda de peso ou episódios noturnos, é hora de investigar em vez de adaptar a rotina. Em São Paulo, SP, a consulta com gastroenterologista organiza a história, define a ordem dos exames e evita tanto o excesso de exame quanto o diagnóstico que se perde por falta dele. Sinais de desidratação ou sangramento volumoso são caso de atendimento de urgência.
Revisão técnica: Dra. Ana Thereza Marzola, CRM-SP 166221 | RQE 99360.
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